Com a malandrice - canecas das Caldas
Por Colaço, Maria da Conceição Parreira   
19/06/2006

 

(Obra registada no IGAC Inspecção-Geral das Actividades Culturais)

Com a malandrice é a caracterização actual, no mercado da louça das Caldas, das canecas de faiança que integram no seu interior dois tipos de motivos: ou um pénis em erecção, ou um montículo de fezes.

O presente artigo tem como objecto de análise a caneca com os motivos fálico e o Zé-Povinho a fazer o manguito, no interior e no exterior, respectivamente.

Procurando compreender a sua natureza, enquanto artefacto de raiz popular, começámos por investigar quando, como e porque aparece a associação destes dois motivos na referida caneca. Na falta de registos escritos sobre esta produção cerâmica, utilizámos as fontes orais que fazem parte da memória colectiva dos oleiros, ceramistas e vendedores mais antigos.

Estas canecas terão aparecido, originariamente, na década de trinta do século XX. Como surgiu esta ideia e quem foi o autor, desconhece-se. E nem é possível averiguar, com certezas, a procedência da ideia subjacente à criação desta forma de arte popular, visto não existirem registos escritos, não se encontrarem assinadas, nem tão pouco apresentarem qualquer marca as peças antigas que chegaram ao presente.

Duas razões, pelo menos, terão concorrido para esta impossibilidade actual de situar cronologicamente, com precisão, estas peças: o facto de não terem os antigos oleiros o costume de assinar, nem de registar os seus trabalhos, associado à proibição da sua comercialização até ao 25 de Abril.

É testemunho unânime de todos os inquiridos que a loiça fálica, a partir do seu primeiro aparecimento nas Caldas da Rainha, na segunda metade do século XIX, cedo se tornou uma produção privada e anónima, feita nos fornos caseiros dos oleiros, muitos deles, operários que trabalhavam nas fábricas locais.

A caneca cuja proposta de interpretação propomos neste artigo apresenta, pois, como motivo decorativo modelado no exterior a imagem do Zé-Povinho (a fazer o manguito) e, no interior um pénis em erecção, furado na base e no cimo para que o líquido da caneca circule por ele.

Reúne, assim, dois motivos emblemáticos da cerâmica caldense da segunda metade do século XIX: a garrafa, designação ambígua, de significado subentendido, dos conhecidos pénis erectos de louça das Caldas, originariamente produzidos na Fábrica de Manuel Gomes, “o Mafra” e a caricatura do povo português, no gesto de “fazer o manguito”, criada por Rafael Bordalo Pinheiro.

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Anónimo
Caneca com malandrice, 2005
Faiança policromada
Oferta de Amílcar Costa (Loja Artesanato Costa, R. de Camões, 21, Caldas da Rainha)

Trata-se, de uma expressão da criatividade popular que toma forma a partir de duas fontes culturais diferentes, a primeira das quais conservada na memória colectiva e veiculada oralmente. Relativamente a esta, contudo, teremos que distinguir ainda dois tipos: uma memória por assim dizer histórica, conservada numa família de ceramistas caldenses e transmitida sem hiatos temporais, cujo herdeiro directo é o conceituado artista cerâmico Herculano Elias. E uma memória colectiva, elaborada com elementos residuais a partir de materiais diversos, numa amálgama aparentemente uniforme.

No primeiro caso incluímos o testemunho do referido artista sobre a origem da primeira garrafa, representação do pénis em erecção.

Ideia do rei D. Luís, que terá feito produzir este motivo, com carácter privado, na Real Fábrica de Faianças de Manuel Gomes, o Mafra, nas Caldas da Rainha, na segunda metade do século XIX, foi seu executor o operário João Pereira. É esta a informação fornecida em 1987 a Aida Sousa Dias e Rogério Machado:

“Herculano Elias conta-nos o episódio do aparecimento dos falos na loiça das Caldas: ‘O rei D. Luís, visitando a fábrica de Manuel Cipriano Gomes (O Mafra), pede-lhe que invente um objecto divertido que faça distrair os seus amigos. O velho Mafra, um pouco embaraçado, incumbiu o seu operário João Pereira, por alcunha ‘O Bandalho’, de atender aquela pretensão do monarca. João Pereira, com as técnicas da época inventou um falo, monocromático, tendo na base aplicações que fazem lembrar a técnica de imitação do musgo.. A alcunha de João Pereira – ‘O Bandalho’ – deve-se ao facto de, quando nas oficinas se estava a trabalhar, ao entrarem ali as damas da corte para as visitar, João Pereira gritava: - ‘Eh pá! Põe o bandalho em cima dessas mesas! (Bandalho – pano ou trapo grande)’.”(1)

O mesmo acontece relativamente às memórias que o mesmo tem procurado conservar, fazendo o registo contextualizado de factos relevantes, para o estudo da cerâmica tradicional das Caldas da Rainha e seu desenvolvimento.

Artista cerâmico, descendente de ceramistas que não só trabalharam na oficina do Mafra, mas também pertenceram à família deste, é herdeiro directo da sua arte e das suas vivências em primeira-mão. Conta que o seu avô comprou, em 1888 os pertences, fornos e outro material, a Manuel Gomes, o Mafra, e instala a sua própria fábrica na Rua do Jasmim, junto à estação dos Caminhos-de-Ferro. Por outro lado, seu pai foi amigo do filho do “Bandalho”, ceramista que modelou a primeira garrafa. Sendo o filho do “Bandalho” também ceramista, trabalhando na referida fábrica do seu avô, que se manteve activa até 1940.

Afirma, ainda, que as primeiras canecas a apresentarem o motivo fálico no interior surgiram na década de trinta, associando o referido motivo às já existentes canecas da cereja sobre granitado do “ciclo Mafra”.

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Anónimo
Caneca com malandrice, c. 1930
Faiança policromada
Propriedade de António Rato

Ou seja, algum operário se terá lembrado de acrescentar a este modelo o motivo fálico, procedimento que se tem repetido com outros modelos, num evidente sentido lúdico.(2) Este testemunho é confirmado, também, pelos Ceramistas que tivemos oportunidade de entrevistar nos últimos dois anos, 2004-2006, nomeadamente Armindo Reis, Ramiro, Américo e Vítor Lopes.

O relato de Herculano Elias acerca da origem e desenvolvimento deste tipo de cerâmica nas Caldas, embora baseado numa tradição oral, a da sua família, poder-se-á considerar, no entanto, o mais próximo dos factos ocorridos. Isto porque se trata de um conjunto de memórias que se manteve de geração em geração, sem hiatos de transmissão e, a partir de certa altura, fixados em registos pessoais privados. Como dizem J. Fentress e C. Wickham,

“A memória social é de facto muitas vezes selectiva, distorcida e pouco rigorosa. Não obstante, é importante reconhecer que não o é necessariamente: pode ser extremamente exacta, se as pessoas, desde então até agora, sempre acharam socialmente relevante recordar e narrar um acontecimento da maneira como originalmente foi sentido.” (3)

Exemplo do segundo tipo de memória colectiva é a narrativa oral sobre a origem das canecas que apresentam reunidos o motivo fálico juntamente com o do Zé-Povinho. Toma! (manguito).

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Anónimo
Caneca com malandrice, 2006
Faiança policromada
Oferta de Ramiro (Ceramista)

Recolhida junto dos vendedores e oleiros mais antigos em 1999, e posteriormente “corrigida” pelos mesmos, a partir de informações exteriores, situa o aparecimento destas canecas no reinado de D. Carlos, filho de D. Luís, tendo-nos sido transmitida como se segue:

“Dizem os mais velhos que o rei D. Carlos vinha muitas vezes às Caldas a banhos. Era então que mandava organizar grandes caçadas. No fim das caçadas, mandava preparar um banquete onde comiam e bebiam em grande paródia e animação. Um dia, resolveu pregar uma partida aos amigos da corte. Lembrou-se, então, de mandar fazer destas canecas, com o pirilau lá dentro. Agora o pirilau é pequeno, mas dantes chegava quase ao bordo. Mas não podia chegar completamente, senão via-se logo e já não fazia efeito a piada. O pirilau era roto lá em baixo e cá em cima, como ainda se faz, que é para o vinho entrar por ele acima e esguichar para os olhos, quando se emborca a caneca. Aqui é que está o segredo desta paródia: as pessoas não estão à espera de levar uma ‘mijadela’! (gargalhadas).”

O Zé-Povinho. Toma! (fazendo o manguito), de Rafael Bordalo Pinheiro e a garrafa das Caldas são, assim, duas obras criadas por dois sujeitos autónomos em que ambos recuperam, visivelmente, formas da herança cómica popular. Mas embora a natureza satírica e paródica seja comum às duas formas, as posições ideológicas, a partir da qual se constrói essa mesma natureza, não o são. Antes pelo contrário, elas têm, na nossa perspectiva, polaridades opostas.

Como, então, é possível a recuperação posterior destes dois motivos numa única forma, a caneca com a malandrice, simbiose das duas formas originárias?

Uma hipótese de interpretação deste fenómeno poderá ser que o traço mnésico desse antagonismo foi ou conscientemente afastado, ou, mais provavelmente, esquecido. A reforçar a possibilidade desta hipótese está a narrativa veiculada oralmente. Nesta se combinam, igualmente, a memória da natureza paródica comum às duas formas originárias, o Zé-Povinho e a Garrafa, deixando, no entanto, apagada a memória dos traços ideológicos que as separam. O facto de, temporalmente, a origem desta caneca ser localizada pela memória colectiva ligada à sua produção popular, no reinado de D. Carlos, não significa que estejamos perante uma falsa memória, pois que a representação da passagem do tempo é diferente quer se trate do discurso historiográfico, quer do das memórias colectivas (4). Nestas, o aspecto simbólico prevalece sobre o factual. Aqui, a passagem do tempo é marcada simbolicamente pela sucessão factual do rei D. Luís a D. Carlos. O que importa, pois, na história oral, é marcar o aparecimento da referida caneca, num tempo posterior à garrafa. O que está correcto do ponto de vista sequencial, em termos gerais, embora não seja exacta a sua localização no reinado de D. Carlos.

Tal como apontámos no início, a segunda referência cultural, diz respeito à criação do Zé-Povinho a fazer o manguito, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) (5). Artista multifacetado, republicano empenhado, anticlerical e maçónico, expressou sempre as suas ideias através da sua arte, porque, são palavras suas, “não há manifestação artística sem finalidade moral” (6). Mas nem o “ódio faccioso”, nem o ânimo obscurecido pela “paixão partidária” o impediram “de rir no império de D. Pedro II como no reino de D. Luiz e de D. Carlos” (7), inventando a figura, rapidamente emblemática, do Zé-Povinho, numa sátira burlesca ao regime monárquico, nos seus ministros e no rei:

“Em 12 de Junho de 1875 (datado por engano de 19), o número 5 d’A Lanterna Mágica, Revista Ilustrada dos Acontecimentos da Semana, por Gil Vaz, por Gil Vaz (isto é, Guilherme de Azevedo e Guerra Junqueiro, autor colectivo de uma peça que fará escândalo e será proibida em 1879, A Viagem à roda da Parvónia), publicou um desenho do jovem Rafael Bordalo Pinheiro em que veio à luz uma personagem destinada ao mais brilhante destino – imagem e símbolo que seria do povo português. Chamou-se “seu Zé-Povinho” e começou a vida pagando para a cera do Sant’António. Recebe-lhe a esmola António de Serpa Pimentel, ministro da Fazenda do dito santo, que, no seu altar popular, tem as feições do presidente do Conselho António Maria Fontes Pereira de Melo, chefe do Partido Regenerador. Ao colo, o Menino tem o rosto do rei D. Luís I e a sua coroa. Zé-Povinho identifica-se pelo nome que lhe corre ao longo das calças remendadas e dá, com sacrifício, os “reais” que não tem.” (8)

Em 1885, começa a sua actividade cerâmica, na recém-fundada Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Como referem A. S. Dias e R. Machado (9), muitas das suas caricaturas, publicadas nos jornais, são passadas à cerâmica. É o caso das múltiplas imagens do Zé-Povinho, nomeadamente as do manguito.

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Rafael Bordalo Pinheiro
Caixa “Toma”, 1904
Faiança
Museu Bordalo Pinheiro

O manguito, enquanto expressão gestual, é antigo. Ao longo do tempo, tem sido utilizado como artifício retórico, nomeadamente literário, frequentemente com função satírica, política e social. O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (10) dá como significado de manguito “Gesto obsceno”, contextualizando-o na Feira dos Anexins, de D. Francisco Manuel de Melo, século XVII: “Até aqui, meus amigos, vai isso muito frio: necessitam os chistes de manguito”. Mas não dá o significado do gesto, acontecendo o mesmo com o Dicionário de Morais (11).

Já António José Saraiva faz derivar a palavra manguito de mango, que diz significar o pénis:

“AUTO DA BARCA DO INFERNO

A mulher que te fugio
Per’a Ilha da Madeira!
Cornudo atá mangueira,
Toma o pão que te caio!
Hiu! Hiu! Lanço-te ua pulha!
Dê-dê! Pica naquela!
Hump! Hump! Caga na vela!
Hio, cabeça de grulha!
Perna de cigarra velha,
Caganita de coelha,
Pelourinho de Pampulha!
Mija nágulha, mija n’agulha!

MANGUEIRA: tem entre outros significados o de pau maior do mangual, também chamado mango. Esta última palavra designa também o pénis, e dela deriva a palavra manguito. Mangueira deve ter, portanto, um significado obsceno.” (12)

O equivalente verbal do gesto do manguito é o imperativo toma! É este, aliás, o título que o Artista imprime, em relevo, nas referidas obras. Toma! Toda a gente conhece esta expressão de irritação e, simultaneamente, de recusa de uma atitude, habitualmente recebida de outrém, como prepotente e inaceitável.

O dicionário de Morais classifica, também, este termo como “Gesto obsceno” e atribui-lhe “o m. q. manguito” (13).

Rodrigues Lapa, acerca do termo “tomar”, na cantiga de escárnio e maldizer n.º 117, diz: “Não temos dúvidas de que tomar está aqui em sentido obsceno.” (14)

As figas são o equivalente gestual do manguito. Desde a Antiguidade até hoje são reconhecidas, tanto no gesto como na sua expressão plástica em materiais diversos, geralmente associadas a outros objectos (corno, quarto lunar, “sino-saimão”, pentagrama estrelado inscrito numa circunferência), um dos amuletos contra os malefícios, sobretudo o designado “mal de inveja” ou “mau olhado”.

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Talismã (figa, corno, meia-lua, sino-saimão), 2005
Prata

O dicionário de Morais descreve a figa como “Figura em forma de mãozinha fechada, com o polegar entre o indicador e o grande, e usado supersticiosamente como amuleto”, acrescentando “Sinal feito com a mão, pondo os dedos como na figa, para esconjurar ou repelir.” E mais à frente: “Figas! ou figas canhoto!, interj. Pop. Some-te! Abrenúncio!” (15). No Novo Dicionário Banto do Brasil, de Nei Lopes, figa

“poderia ser derivada do suaíli fingo, "amuleto"; contudo, ele não descarta a hipótese contrária, isto é, de se tratar de vocábulo português que ingressou no idioma africano - o que parece ser mais provável. Embora este seja um dos amuletos preferidos pelos seguidores das religiões afro-brasileiras, já era conhecido na pré-história européia. O vocábulo figa vem do Latim fica e aparece também no francês e no espanhol (higa, respectivamente); trata-se, portanto, de uma contribuição do nosso idioma às línguas daqueles povos africanos com que Portugal manteve contato, antes mesmo de descobrir o Brasil. O que muitos não sabem é que a figa sempre teve um evidente conteúdo fálico, em que o polegar representa o membro masculino entre os lábios da vulva feminina; o poder contra o mau-olhado atribuído a este amuleto deriva exatamente da crença primitiva de que o sexo e a fertilidade são forças do bem.” (16)

Regressando ao contexto histórico e social de Portugal no século XIX, a expressão escrita da oposição política entre monárquicos católicos, e maçónicos republicanos, tinha já uma forte tradição em órgãos de comunicação diversos.

O Anuário Maçónico Português (17), por exemplo, refere no ano de 1779 uma notícia da inquisição (A.N.T.T. Inquisição de Coimbra, processo nº 8094, fls. 33v-34v e proc. Nº 726) sobre uma paródia “relacionada com as cerimónias de iniciação maçónica”(18); em 1820, “O jornalismo tornou-se um modo de vida e proliferou de tal modo que o Padre José Agostinho de Macedo sentiu-se perante ‘a praga dos periódicos políticos’. Havia várias posições: ataques às cortes e defesa do trono ameaçado, suporte das cortes como emanação directa da vontade popular.” (19); em 1821 assinala a existência de artigos de jornais “a ridicularizar ou defender os princípios maçónicos.” (20); esta situação prolonga-se por 1822 e 1823. Neste ano, a Gazeta de Lisboa, de 1 de Julho, “anunciava um livro de autor anónimo com o título Figas aos Mações, ou a Mascara Rasgada (21).

Se quisermos transpor para a expressão plástica, o significado do gesto, na sua natureza essencial, obteremos a forma naturalista do pénis em erecção, característico da cerâmica das caldas. Portanto, Figas aos Mações, na leitura ideológica e política que sugerimos da garrafa das Caldas, bem podia ser o antecedente da sátira em tom burlesco, de que aquela seria uma metáfora.

Perguntamos, então: haverá alguma relação entre a garrafa da Fábrica de Manuel Gomes Mafra e o Zé-Povinho a fazer o manguito, de Rafael Bordalo Pinheiro? Se sim, poderá o manguito ter sido a resposta à garrafa? E esta, por sua vez, terá sido uma contra-resposta às sátiras feitas por aquele à monarquia e ao Rei?

Não sabemos. Mas pode ser uma hipótese a considerar.

Nem Rafael Bordalo Pinheiro, nem a sua Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha produziram quaisquer das referidas garrafas.

A partir de Herculano Elias, avô, também nenhuma outra fábrica, até à actualidade, produziu este tipo de cerâmica. Pelo que por volta de 1940, época em que surge no mercado a caneca com o motivo fálico no interior, a produção desta cerâmica já era feita pelos oleiros, artesanalmente, nas suas pequenas oficinas caseiras. Muitos deles eram operários das fábricas e só nos seus tempos pós-laborais, se ocupavam com essa produção. Ou seja, estes ceramistas que produziam particularmente, nas suas casas este tipo de loiça, eram, também, os que produziam nas fábricas a loiça característica de cada uma delas. Esta situação acontecia, igualmente, com os operários da Fábrica de Faianças Artísticas Rafael Bordalo Pinheiro, herdeira do espírito e dos modelos artísticos da primitiva Fábrica de Faianças, fundada por aquele e da de S. Rafael, fundada por Manuel Gustavo, seu filho, em sua memória. Relativamente aos processos da memória para a reelaboração do passado, partilhamos a perspectiva de que eles participam da dinâmica da criação artística, embora habitualmente se verifique, na análise desta dinâmica, uma sobrevalorização do papel da imaginação na elaboração das novas configurações.

No entanto, o papel da memória é fundamental, porque não há criações a partir do nada. Qualquer obra, seja ela mais ou menos inventiva, é sempre o produto de um trabalho da memória, que opera com elementos residuais, interiorizados, de conhecimentos armazenados, trazidos à consciência e explicitados por meio da expressão verbal, plástica ou gestual.

No processo de recriação artística, que dá origem à caneca, por uma questão de economia da expressão, que assim assegura a sobrevivência da nova forma, o traço distintivo da sátira, relativa às duas formas originárias, que as situava nos antípodas uma da outra, foi anulado. Ficou apenas o elemento cómico, como elemento unificador e estruturante da nova configuração.

Concluindo, quer no domínio da criação artística, quer no científico ou na historiografia, todas as elaborações são interpretações que reflectem, de modo mais ou menos distanciado, as representações que os sujeitos que as produzem têm da realidade. Na elaboração desta caneca, manifestamente, é a referência da natureza cómica e paródica o elemento residual da memória que prevalece. Esquecido ficou o contraste ideológico subjacente, que motiva, a nosso ver, o processo criativo das duas formas originárias – a Garrafa e o Zé-Povinho. Toma!

NOTAS

(1) Aida Sousa Dias, Rogério MACHADO, A Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, Porto, Lello & Irmão Editores, 1987, 13.

(2) Duas Entrevistas: em Junho de 2001 e Março de 2005.

(3) James FENTRESS, Chris WICKHAM, Memória Social. Novas perspectivas sobre o passado, Lisboa, 1994, p. 10.

(4) Cfr. Maurice HALBWACHS, La mémoire collective, Paris, Éditions Albin Michel, 1997.

(5) “Desenhador e aguarelista. Gravador. Precursor do cartaz artístico em Portugal. Decorador. Actor teatral amador. Caricaturista político e social. Jornalista. Ceramista. Professor.” In Aida Sousa DIAS, Rogério, MACHADO, A Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, Porto, Lello & Irmão Editores, 1987, p. 52.

(6) Jornal do Commercio.O Mosquito, N.º 341, Rio de Janeiro, 12de Fevereiro de 1876, cit. em Manoel de Sousa Pinto, Raphael Bordallo Pinheiro. I – O Caricaturista, Lisboa, Livraria Ferreira, 1915, p. 59.

(7) Ibidem.

(8) José-Augusto FRANÇA, Zé-Povinho na obra de Rafael Bordalo Pinheiro 1875 / 1904, Lisboa, Livraria Bertrand, 1975, p. 7.

(9) Ob. cit., p. 140.

(10) José Pedro MACHADO, Diccionario Etimológico da Língua Portuguesa, Lisboa, 3.ª ed., Livros Horizonte, s. d., 4 vol.s, vol.4.

(11) António de Morais SILVA, Novo dicionário compacto da língua portuguesa, Mem Martins, 4.ª ed., Editorial Confluência, 1988, 5 vol.s ,vol. 3.

(12) António José SARAIVA, Teatro de Gil Vicente (Apresentação e leitura), Lisboa, 7.ª ed., Portugália Editora, s. d., pp. 95 e 382.

(13) Ob. cit., Vol. 5.

(14) Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos cancioneiros medievais galego-portugueses, (edição crítica e vocabulário: Prof. M. Rodrigues Lapa), Lisboa, Edições João Sá da Costa, s. d., p. 90.

(15) Ob. cit., vol. III.

(16) http://educaterra.terra.com.br/sualingua/02/02_supersticoes_2.htm

(17) Luís Falcão da FONSECA, Anuário Maçónico Português. Fragmentos, Lisboa, Folhas e Letras-Editores, 2003.

(18) Idem, p. 15.

(19) Idem, p.35.

(20) Idem, p. 36.

(21) Idem, p. 41.

 

As razões humanas são invenções feitas no chão do tempo pela acção dos sujeitos que o pisam. Umas aparecem outras não.